Raízes
A coleção Raízes tem início com a bag ABDOM, peça que marca a estreia da Exímia por meio de sua linha Lathecraft, dedicada ao trabalho artesanal e autoral em couro. Como primeiro capítulo deste ecossistema criativo, a coleção Raízes materializa os princípios que orientam o ecossistema: a valorização do fazer manual, da pesquisa e da criação de objetos carregados de identidade e significado. Sua construção reflete o compromisso da Exímia com processos autênticos, nos quais cada detalhe é pensado para estabelecer uma conexão genuína entre objeto, criador e usuário. Assinada pelo designer Higor Alves, diretamente do noroeste de Belo Horizonte, a coleção nasce de uma investigação sobre as raízes afro-brasileiras e sobre a dificuldade de acessar a própria ancestralidade enquanto pessoa negra no Brasil. Em meados de 1890, o ministro da Fazenda Rui Barbosa ordenou a destruição de documentos oficiais relacionados à escravidão (DUARTE et al., s.d.). Esse ato comprometeu o rastreamento de inúmeras histórias familiares e continua dificultando a reconstrução da ancestralidade negra brasileira. Paralelamente, políticas de incentivo à imigração europeia foram adotadas com a intenção de promover o embranquecimento da população brasileira (EDUARDO; SÁ NETO, 2023), reforçando um processo histórico de apagamento de identidades e memórias. Outro símbolo importante dentro dessa pesquisa é a chamada “Árvore do Esquecimento”, um baobá localizado em Ouidah, no Benim. Antes de serem embarcadas para as Américas, pessoas escravizadas eram submetidas a um ritual em torno dessa árvore. Homens e mulheres davam voltas ao seu redor com o objetivo simbólico de romper os vínculos com sua terra natal, suas memórias, crenças e laços familiares. Esse processo representava uma tentativa de apagamento forçado da identidade e da história desses indivíduos (SILVA, 2021). É nesse contexto que surge o conceito central da coleção. A ausência de informações sobre a ancestralidade do negro brasileiro revela uma história fragmentada, semelhante a um quebra-cabeça ao qual faltam peças fundamentais. Diante desse vazio, a pesquisa busca reencontrar e reivindicar essa raízes. Como guia conceitual, surge o Sankofa, símbolo Adinkra que representa a importância de retornar ao passado para compreender o presente e construir o futuro. A partir desse princípio, a investigação percorre o deserto africano, os povos saarianos, os tuaregues, os tubus e outras culturas cujos saberes, símbolos e formas de viver preservam profundas relações com território, memória e pertencimento. "Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo." O projeto propõe um olhar para as raízes afro-brasileiras entendendo o passado como um caminho de aprendizado, reconstrução e afirmação. Embora a história revele marcas profundas de violência, deslocamento e apagamento, a intenção não é permanecer na ausência, mas transformar memória em potência. Olhar para trás torna-se um ato de reconhecimento. Um movimento capaz de reconstruir narrativas, fortalecer identidades e recuperar conexões interrompidas pelo tempo. A leitura visual das referências evidencia um universo rico em significados. Objetos, indumentárias, joias, mobiliários, animais e elementos simbólicos revelam modos de viver profundamente conectados à terra, à espiritualidade e à coletividade, Cada detalhe carrega uma narrativa própria e contribui para a construção de um imaginário marcado pelo pertencimento e pela ancestralidade. Ao mergulhar nesse universo, o projeto estabelece diálogo com os saberes artesanais dos povos do deserto, especialmente no trabalho com peles, tecidos e construções utilitárias. Dessa observação surgem composições marcadas por camadas, assimetrias e formas orgânicas, traduzindo visualmente a relação entre corpo, território e identidade. A união dessas referências e muita pesquisa, leituras e etc dá origem à coleção RAÍZES. Um projeto que aproxima passado e presente para construir novas possibilidades de representação. Mais do que reproduzir símbolos ou referências visuais, a coleção propõe reafirmar identidades, ressignificar narrativas e transformar memória em linguagem viva. A Bag Abdom é o primeiro capitulo dessa coleção e em um futuro proximo vamos ter mais exploração dentre esse universo da coleção Raízes, que é uma coleção em andamento.
Year
2026
Project type
colecction





